sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Apoio a Ruy Barbosa

Os Vasconcellos Bittencourt ao se radicarem em São Paulo, especialmente os irmãos José e Rodrigo, mantiveram intensa movimentação política, tendo sido vereadores nos municípios de Casa Branca e Tambahu.
Neste texto, veremos as circunstâncias do apoio a outro baiano, Ruy Barbosa, o "Águia de Haia".
Era primeiro de agosto de 1913, quando a Câmara de Vereadores de Tambahu-SP, então presidida por Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt, fez aprovar uma moção de apoio à candidatura de Ruy Barbosa à Presidência da República.
Era a segunda vez que o "genial Pioneiro da Liberdade" nos dizeres daquele documento, apresentava seu nome à disputa para o cargo máximo do executivo nacional. Na primeira vez, em 1910, marcou com a "campanha civilista" uma importante passagem da política nacional, obtendo expressiva votação, em contraposição à candidatura militar de Hermes da Fonseca. Essa campanha foi possível em função da divisão da tradicional política do café-com-leite. Daquela vez, São Paulo ficou sem candidato, restando apoiar o principal nome da oposição, Ruy Barbosa.
Em 1913, contudo, Ruy não conseguiu apoio suficiente para enfrentar o mineiro Wenceslau Brás, que obteve o apoio também do governo paulista, que tinha Rodrigues Alves como principal liderança política.
Neste contexto, a Câmara de Tambahu, num ato de rebeldia, manifesta-se contrária ao posicionamento do presidente de São Paulo. Diante da grave situação, diz a Moção, "não é permitido a indiferença, a apatia", e mais, "a inércia é a morte, a luta é a vida". Assim, enaltecendo a sua figura, declara apoio a Ruy. Este, no entanto, em dezembro do mesmo ano, lança carta em que fundamenta a desistência da candidatura, abrindo caminho à vitória de Wenceslau Bras.
Abaixo, um fac-símile da primeira página da edição de 4 de agosto de 1913 do jornal o Estado de São Paulo, na qual se vê publicado o documento aprovado pela Câmara de Vereadores.



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Genealogia contada


Quando o Seu Sebastião José da Silva Meira faleceu, em 1938, deixou sete filhos pequenos: Anna, Maria, Flora, Constança, Cândida, José e Sebastião; a mais velha com nove anos de idade, e o caçula com apenas cinco meses.
Não foi fácil para Dona Maria Carlota Moura, viúva de Seu Sebastião aos 40 anos de idade, com prole numerosa, sendo cinco, meninas. Anna, ainda menina, ajudava a mãe com os mais novos, mas era muito trabalho. Não fosse a mão escrava que sustentava e cuidava da riqueza da família, sua vida não seria fácil.
Maria Carlota olhava para a prole e pensava na sua própria infância. Órfã de mãe aos três anos, sendo a única filha mulher, teve que se ver com afazeres domésticos desde cedo, ajudando na criação dos irmãos. Dona Maria Efigênia da Rocha Albuquerque, sua mãe, morrera de parto, e seu pai, Martiniano José de Moura faleceu quando Carlota completara 19 anos de idade.
Tempos difíceis. O irmão de Maria Carlota, José Honório, primogênito que assumiu a liderança da família, acabou assassinado nas ruas da Vila de Rio de Contas em decorrência de disputas políticas, também muito novo, aos vinte sete anos, durante o processo da Independência do Brasil.
Maria Carlota e os demais irmãos, Antonio Justiniano e Martiniano, buscaram justiça. Inconformados com o assassinato pediram uma devassa em 1823, contra o “partido português” na guerra entre brasileiros e portugueses. Ao final, prevaleceu a impunidade e a perda do irmão, que contava apenas com 27 anos de idade.
Assim, naquele início do ano de 1838, a família Moura já passara por muito desgosto e tristeza, e o falecimento de Sebastião Meira representava novos desafios para D. Carlota e seus filhos.
O clima político era acirrado no sertão. Sete anos após a morte do marido, Carlota acompanhou a contenda entre as famílias Canguçu e Moura, resultando na morte do irmão, Martiniano. No mesmo episódio, um grave atentado contra Manuel Justiniano, por pouco também não ceifa a vida do seu último irmão.
Nem todos os filhos sobreviveriam à infância e adolescência. Flora, uma das mais novas, morre em 1850, aos quinze anos, "de feridas pelo corpo", revelando as limitações dos tratamentos de então.
Entre as filhas de Maria Carlota, Constança, que se casou com Wenceslau Risério de Araújo, teve prole numerosa e vida longa.

sábado, 27 de outubro de 2018

O último dos Vasconcellos Bittencourt


Desde o longínquo ano de 1724, quando nasceu Braz de Vasconcellos Bittencourt, até 1975, quando faleceu Leônidas, contam-se ao menos sete gerações em que os homens da família carregaram o sobrenome Vasconcelos Bittencourt.

Para situar o leitor desacostumado com essa trama, Braz era filho do Capitão Bartholomeu Correa de Vasconcelos e Dona Francisca Xavier de Bitencourt, casados no ano de 1703, no isolado arquipélago dos Açores. Leônidas, por sua vez, era filho de Faustino de Vasconcelos Bittencourt(1867-1934) e D. Francisca Maria de Vasconcellos Castro(1866-1961), e viveram no sertão da Bahia.

Conhecido pelo apelido de “Sinhô”, Leônidas era filho único do terceiro casamento de Faustino, com a prima Francisca*. Sinhô se casou com Dona Clotilde, ou “Santa”, como era chamada pelos amigos e conhecidos, e viveram na fazenda Capoeira, na área rural de Itanagé, denominação atual da Fazenda de Cima, distrito do município de Livramento de Nossa Senhora.

No alto da serra, em um vale verde, em plena Chapada Diamantina, próximo à cachoeira do Berra-Bode, construíram uma casa e formaram uma prole de cinco meninos. Ali nasceram Faustino, Reinaldo, Raimundo, Benilton e Edmundo, este já falecido.

Nascida na região do Tabuleiro, perto de Itanagé, e devota de Nossa Senhora de Aparecida, Santa, cujo nome de solteira era Clotilde Alves dos Santos, ao se casar, passou a assinar Clotilde Alves Bittencourt, assim como um dos filhos. Os demais são Alves Vasconcelos.

Nascido em 15 de dezembro de 1909, Leônidas de Vasconcellos Bittencourt faleceu aos 64 anos incompletos, em 20 de julho de 1975. Sua esposa continuou vivendo na fazenda com os filhos. Ali se dedicaram ao plantio da cana de açúcar, beneficiada em alambique próprio, à criação de algum gado, de galinhas, além de pequena produção agrícola, inclusive para consumo da família.


* Francisca, conhecida como Chiquinha, era viúva de Manoel Joaquim Augusto (1841-1907), com quem teve os seguintes filhos: Adelaide Augusta, Josepha, João Augusto, Maria Augusta, Maria da Gloria e Leonilda Augusta. Francisca era filha de Leônidas Pereira de Castro e Maria da Gloria Vasconcelos Magalhães.


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Vasconcellos e Meira

Essas duas famílias tradicionais da região de Livramento, no sertão da Bahia, se entrelaçaram a partir do casamento de José de Vasconcellos Bittencourt e de Rodriga Castro Meira, nos idos de 1840. Rodriga era filha de Rodrigo de Souza Meira Sertão e Maria Carlota de Castro(1). José era filho do português de mesmo nome - José de Vasconcellos Bittencourt, oriundo dos Açores, e Gertrudes Spinola de Souza(2).

Do casamento de José e Rodriga, nasceram Geracina Cândida de Vasconcelos Meira, Maria Olívia de Vasconcelos Meira, José de Vasconcellos Bitencourt Filho, Rodrigo de Vasconcelos Meira(3)Francisco de Vasconcelos Meira, conforme as informações disponíveis no inventário de Rodriga de Castro Meira.


(1) Maria Carlota de Castro era filha de Joaquim Pereira de Castro e Francisca Joaquina de Jesus. Rodrigo, filho de Ana Xavier da Silva Cotrim e do Capitão Francisco de Souza Meira. O Capitão Francisco foi quem desenvolveu o povoado de Bom Jesus dos Meira antiga fazenda Brejo do Campo Seco, atual cidade de Brumado-Bahia.
(2) O açoriano José de Vasconcellos Bittencourt era filho de Brás de Vasconcellos Bittencourt e Gertrudes Naves, também açorianos. Gertrudes Spínola era filha de Thimóteo Spinola de Souza e de Dona Ana Maria de Carvalho.
(3) O nome de Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt, adotado por ele ao longo da vida, é grafado como Vasconcelos Meira no Inventário da sua mãe.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Thimóteo Spinola de Souza

Há muitas histórias sobre Thimóteo Spinola de Souza, nascido por volta de 1744, na Ilha Graciosa, Açores, tendo se fixado na região de Rio de Contas, onde faleceu.  Diversos registros sobre sua atividade na Bahia são mencionados por historiadores, sobretudo como "dizimeiro real". Seu testamento, registrado em Rio de Contas, demonstra ter sido, efetivamente, um homem de muitas posses.
Mas, um fato, no mínimo curioso, ficou anotado  na história da sua terra natal, a Graciosa. Thimóteo teria desembarcado na Ilha em 28 de setembro do ano de 1818, transportado em embarcação própria que aportou na Calheta, e dali seguiu à sua casa, no Arrebalde. Além de mercadorias a serem ali comercializadas, levou uma filarmônica. Pois é, uma banda - aquela que é considerada a primeira filarmônica da Graciosa. Pra completar, o grupo era constituído por escravos, sob o comando do mestre Apolinário.
Consta que permaneceram por dois anos no arquipélago, sendo presença garantida em inúmeros festejos.
Ocorre, que ao preparar o embarque para o Brasil, a carga com os instrumentos caiu no mar, e lá ficaram clarinetas, trombones, flautas, etc perdidos, no cais do porto.
Tendo retornado em 1820, quatro anos depois Thimóteo veio a falecer.

Referências:
Canto Moniz, Antônio Borges do. Ilha Graciosa(Açores). Descrição histórica e topográphica (1883). Instituto Açoriano de Cultura, 1981
Inventário Thimóteo Spinola de Souza, 1824.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Vasconcellos Bittencourt nos Açores

A pesquisa sobre os Vasconcellos Bittencourt nos Açores levou-nos à Ilha da Graciosa, uma das nove ilhas que integram o arquipélago, distante mais de 1.600 quilômetros de Lisboa. Com uma área de 60,66 km², está entre as menores e menos montanhosas formações de origem vulcânica do conjunto.

Na Graciosa, especialmente na Freguesia de Guadalupe, ou ainda, na paróquia de São Matheus e na matriz de Santa Cruz, são encontrados registros de nascimento, casamento, óbito de vários Vasconcellos Bittencourt, de onde foi possível identificar as datas e locais aqui citados. Lá estão os registros de batismo dos irmãos Francisco(1783), Manoel(1791) e José(1794), que se casaram com as filhas de Thimóteo Spinola de Souza, em Rio de Contas.

Seus pais, o Alferes Braz de Vasconcellos Bittencourt e Gertrudes Naves, tiveram outros filhos:  Rosa Francisca(1788), Anna(1797), Maria (1801). Consta, ainda, outro filho José, nascido em 1785. Dois a três anos separam cada nascimento.

Braz e Gertrudes se casaram em 1777. Em 1824, no Caminho das Almas, na Freguesia de Guadalupe, no Concelho da Santa Cruz, falecia o Alferes Braz de Vasconcellos Bittencourt, com 78 anos, nascido que foi em 1746. À época do falecimento,  Dona Gertrudes Naves de Vasconcellos já havia falecido

O Alferes Braz era filho de outro Braz, de igual sobrenome, nascido em 1724, casado, em julho de 1742, com Dona Izabel do Rosário de Souza (Consta Izabel Spínola, no registro de batismo do filho Braz). Braz, o filho, nasceu em 31 de outubro de 1746 e seus pais, naturais da Freguesia de Guadalupe, eram moradores do Caminho da Vitória 

Braz era filho do Capitão Bartholomeu Correa de Vasconcelos e Dona Francisca Xavier de Bitencourt, casados em 1703.

O Capitão Bartholomeu Correa era filho de André Spinola e Ageda Thaide de Vasconcellos, casados em 1677, sendo todos esses dados identificados nos Registros Paroquiais da Ilha Graciosa, Açores.

Dona Ageda era filha de Bartholomeu Correia Pestana e Innes Thaíde (grafado da "Genealogia da Graciosa" como Ignez d'Ataíde Vasconcellos). O manuscrito genealógico "Genealogia da Graciosa" é de autoria de Mateus Machado Fagundes, e é encontrado em: 
     http://culturacores.azores.gov.pt/biblioteca_digital/GENEALOGIAS-GRACIOSA/GENEALOGIAS-GRACIOSA_item1/index.html?page=33 , casados em 1659. 


Veja os links:
Registro de casamento de Brás e Gertrudes no Concelho de Santa Cruz, Freguesia de Santa Cruz ( http://culturacores.azores.gov.pt/biblioteca_digital/GRA-SC-SANTACRUZ-C-1755-1789/GRA-SC-SANTACRUZ-C-1755-1789_item1/index.html?page=169 )

Registro de nascimento de Brás de Vasconcellos Bittencourt, o Alferes, pode ser encontrado em http://culturacores.azores.gov.pt/biblioteca_digital/GRA-SC-GUADALUPE-B-1742-1757/GRA-SC-GUADALUPE-B-1742-1757_item1/index.html?page=68

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O surgimento dos Moura no Alto Sertão da Bahia

É indiscutível a importância e influência política dos Moura no sertão da Bahia, sobretudo entre Rio de Contas e Livramento de Nossa Senhora, no século XIX, seja nos episódios regionais da Independência do Brasil e da Bahia, seja na famosa guerra dos Moura versus Canguçú, décadas depois. 

Um marco importante, é a chegada à região na segunda metade do século dezoito, do Sr. Martiniano José de Moura Magalhães, vindo das Minas Gerais, o que não é estranho visto que a Estrada Real, cujos vestígios ou trechos são percorridos séculos depois, era uma ligação viária essencial sudeste-nordeste do Brasil.

Na Bahia,  Martiniano casa-se com Maria Efigênia da Rocha Albuquerque, filha de Bernardo de Matos e Albuquerque  e Lizarda Liberata da Vitória Rocha Medrado, "mulher de grande prestígio e opulência", tendo gerado cinco filhos: Maria Efigênia, Francisco José, José Messias, Ana e Lizarda (1). 

Bernardo teria adquirido do seu tio, Salvador Barbosa Leal, as terras entre os rios Brumado e São João, pertencentes ao "termo" de Jacobina, patrimônio esse que resultou em herança muito significativa para Maria Efigênia.

Martiniano e Maria Efigênia deixaram uma prole pequena para o padrão da época. Foram quatro filhos: José Honório, nascido em 1795, Martiniano (1796), Maria Carlota (1798) e Manuel Justiniano (1801). Como ocorria com muita frequência, numa época de precária assistência médica, Maria Efigênia não sobreviveu ao parto, deixando os filhos ainda pequenos, contando o mais velho com apenas seis anos (2).

Martiniano José viveu até 1817, quando assumiu os interesses da família o primogênito, José Honório, então com 22 anos. Na Fazenda São Gonçalo plantava-se algodão, cultivava-se mandioca e criava-se gado vacum. 

Os Moura e Albuquerque possuíam duas propriedades rurais: um sítio em Vila Velha, onde residiam, e a Fazenda São Gonçalo. Historiadores relatam ainda que, em 1821, é realizada a compra da Fazenda Umbuzeiros por José Honório ao Morgado da Casa da Ponte.


A provável  ausência de chuvas, que se prolongava desde 1818 na região, é apontada como antecedentes relevantes nas disputas políticas em Rio de Contas ocorridas entre 1822-23, fazendo com que José Honório e seus familiares passassem por dificuldades financeiras, e fossem motivados a lutar por posições de comando na vila e na política. (Ver referência de Moisés Frutuoso, abaixo referido, em nota)

Mas em outubro de 1822, José Honório de Moura e Albuquerque é assassinado nas ruas de Rio de Contas após uma decisiva reunião da Câmara de Vereadores, que envolvia o posicionamento entre os grupos denominados "brasileiros" e "portugueses" em torno da Independência na Bahia, tendo ele se posicionado pela Independência.

Há registros de que a Dona Maria Carlota de Moura e Albuquerque e irmãos tiveram presença importante nas ações que visaram a apuração do assassinato do irmão José Honório.

Outro irmão, Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque, teve significativa participação nas ações ocorridas em Rio de Contas dez anos depois. Manoel Justiniano, que naquele momento ocupava interinamente a presidência da Câmara rio-contense, foi preso sob a acusação de favorecer agressões e assassinatos de seus inimigos políticos, em episódios, ainda pouco estudados.

Na década de 1840, Martiniano, o filho, e Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque participaram de um conflito com outras duas famílias sertanejas: os Castros e os Canguçús resultando em muitas mortes, inclusive, do próprio Martiniano de Moura e Albuquerque, em fins de 1845 ou início de 1846. Registros de familiares indicam que Manoel Justiniano de Moura e Albuquerque teria falecido em 1881.

José Egídio de Moura e Albuquerque, Barão de Santo Antônio da Barra; Joaquim Augusto de Moura e Albuquerque, Barão de Vila Velha; Marcolino Moura e Albuquerque, Deputado Constituinte em 1891, netos de Martiniano José de Moura, são alguns dos representantes da geração seguinte dos Moura e Albuquerque.(3)


(1) CAMPOS DE SOUZA, Luiza. CONFLITO DE FAMÍLIA E BANDITISMO RURAL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX: CANGUÇÚS E “PEITOS-LARGOS” CONTRA CASTROS E MOURAS NOS SERTÕES DA BAHIA. Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História. 2014.


(2) FRUTUOSO, Moisés Amado. “MORRAM MAROTOS!”: ANTILUSITANISMO, PROJETOS E IDENTIDADES POLÍTICAS EM RIO DE CONTAS (1822-1823). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História, da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal da Bahia, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História. Pag. 55. 2015.

(3) Todos os estudos tem como referência a importante obra de Risério Leite, "Famílias sertanejas: os Mouras". In: Revista do Instituto Histórico da Bahia. Ano 8, n. 8. Salvador: Tipografia Manu, 1953. 

domingo, 16 de abril de 2017

Um patriarca dos Vasconcellos Bittencourt

De todas as andanças e buscas sobre a origem dos Vasconcellos Bittencourt no Alto Sertão da Bahia, na região onde hoje estão os municípios de Livramento e Rio de Contas,  constitui o relato mais frequente a versão de que três irmãos que vieram dos Açores - José, Manoel e Francisco, teriam desposado três irmãs descendentes de um açoriano chamado Thimóteo Spínola de Souza.

Poucos registros documentais são encontrados, seja sobre a saída dos Açores ou a chegada à Bahia daqueles Vasconcellos Bittencourt. Diferentemente, há registros sobre Manoel de Vasconcellos Bittencourt, um dos irmãos que casaram com as Souza Spínola, no caso a Sra. Anna Delfina. 

No livro de passaportes da Graciosa, nos Açores, no ano de 1833, é reportada a saída de uma família com destino ao Brasil, para receber herança. Esta família é constituída por Manoel de Vasconcellos Bittencourt, à época com 42 anos, sua esposa Anna Theodora, 36, um filho do primeiro casamento, Francisco, 24 anos, e mais dois filhos novos, Manoel, com 9 anos e José, com 7 anos.

O registro do casamento de Manoel e Anna Theodora, em 1823, nos Açores, lê-se a anotação da sua condição de viúvo de D. Anna Delfina de Souza Spinola. Manoel, o filho, nasceu em dezembro de 1823, e o mais novo, José, nasceu em janeiro de 1826.

Os pais de Manoel eram Braz de Vasconcellos Bittencourt e Gertrudes Naves Vasconcellos, que dentre outros filhos identifica-se dois José - um nascido em 1785 e outro em 1794, ambos registrados na matriz de São Matheus, no Concelho de Santa Cruz, na Ilha da Graciosa.

Na análise do inventário de Timóteo Spinola, falecido em 1824, identifica-se referência como herdeiros, em decorrência de casamento com suas filhas, três Vasconcellos Bittencourt: José, Manoel e Francisco.

Há vários apontamentos da presença de José de Vasconcellos Bittencourt na Bahia, mas a única que sugere ser o mesmo José encontrado nos Açores, é aquela encontrada no inventário de Timóteo. As duas famílias tiveram relações de proximidade, desde o arquipélago. Na Graciosa, de onde se originam é mencionado no registro de casamento de Manoel, acima referido, assim como figura como testemunha do registro de nascimento do mesmo Manoel, em 1791.

Entre outros registros de José de Vasconcellos Bittencourt, na Bahia, ressaltamos:1) Em 1838, ao testemunhar no inventário de Sebastião José da Silva Meira; 2) No mesmo ano, num recibo de hipoteca, assina José de Vasconcellos Bittencourt ao lado de Martiniano Moura de Albuquerque e de José Inocêncio Cangussu.

José e Gertrudes tiveram um filho também chamado José, nascido em 1812, conforme registro de batismo. Este último é o provável tenente-coronel José de Vasconcellos Bittencourt, mencionado em: 1) Em 1863, em um episódio que envolveu outro Tenente-Coronel da Guarda Nacional, Joaquim Augusto de Moura, futuro Barão de Vila Velha; 2) Numa lista de eleitores de Rio de Contas, publicada em O Monitor, edição de 5 de novembro de 1876, figurando como eleitor daquela localidade, ao lado de diversos Vasconcellos Bittencourt.

Outras menções a José de Vasconcellos Bittencourt são encontradas no inventário de Rodriga de Castro Meira, falecida em 3 de dezembro de 1863, com quem havia se casado. José e Rodriga eram os pais de Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt, bem como do Coronel José de Vasconcellos Bittencourt Júnior, também conhecido como Coronel Cazuza, em Tambahu - SP, radicados no final dos anos 1800 na região da Mogiana, Casa Branca, São Paulo. Além desses dois descendentes do casal, o inventário aponta Geracina Cândida de Vasconcellos Meira, casada com Deolindo de Souza Meira, Francisco Meira de Vasconcellos e Cleia de Vasconcellos Meira.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Augusto de Vasconcellos Bittencourt

Augusto foi uma personagem que apareceu nas primeiras referências sobre a diáspora dos Vasconcellos Bittencourt, das Minas de Rio de Contas, na Bahia, para Casa Branca, em São Paulo. O seu nome figurava como um dos sócios, ao lado de José de Vasconcellos Bittencourt Júnior, da Fazenda Terra Vermelha. Lugar de moradia de Rodrigo, filhos e netos, sempre mencionado como local de nascimento destes últimos.

Augusto foi vereador em Casa Branca (1887-1890), foi também Agente do Correio, teve firmas em São Paulo e Rio de Janeiro, possivelmente para o comércio de café.

Era casado com Dona Leonilla de Vasconcellos Magalhães, também oriunda da Bahia, Augusto faleceu em 28 de maio de 1914, em Casa Branca. O casal deixou dois filhos homens, Agripino e Augusto Júnior (1). Três filhas são mencionadas, Adalgisa, casada com Francisco Inácio da Silva (em 1868); Atília, casada com João de Sillos Lima, em 1893e Amelia, casada com Gabriel dos Santos Figueiredo.

As referências à fazenda que possuía em sociedade com José, e um artigo de um jornal de Tambahu, fizeram crer que  fosse irmão do Coronel Cazuza (José de V. Bittencourt) e de Rodrigo. Contudo, uma nota publicada na edição de 17 de maio de 1909, do jornal O Estado de São Paulo, aponta em outra direção. Diz a nota, ter falecido em Casa Branca a "veneranda Senhora D. Anna Amélia de Moura Bittencourt, mãe do Sr. Capitão Augusto de Vasconcellos Bittencourt".

A Dona Anna seria a filha de Martiniano de Moura e Albuquerque(2) e D. Francisca Joaquina. Dona Anna Amélia(1810-1909) era casada com o Major Francisco de Vasconcellos Bittencourt (1810-1886) e tiveram muitos filhos(3). O Major Francisco, por sua vez, era filho Francisco de Vasconcellos Bittencourt e Maria Delfina de Souza. Estes são irmãos respectivamente de José de Vasconcellos Bittencourt e Gertrudes Spínola de Souza, já mencionados em outras postagens.

Assim, Augusto não era irmão de Rodrigo e José (Coronel Cazuza), e sim primo em segundo grau. O entrelaçamento entre as famílias e a repetição dos nomes própios geração após geração, contribuem para que os nomes sejam confundidos. No caso específico, embora não fossem irmãos, suas esposas, Umbelina e Leonilla eram irmãs. Ambas eram filhas do Capitão Brás de Vasconcellos Bittencourt e Antônia Francisca de Magalhães. Para complicar mais um pouco, tanto Brás quanto Antônia eram netos de Timóteo Espínola de Souza.

(1) Aggripino casou-se com Margarida Rodrigues, com proclamas publicadas em abril de 1917. Ele empregado público, ela engomadeira, viúva. À época já eram falecidos Augusto e Leonila. 
(2) Martiniano foi morto, em abril de 1846, por Leolino Canguçu e homens a seu serviço, em meio ao episódio conhecido como Guerra dos Moura. Martiniano era pai de Joaquim Augusto Moura, posteriormente agraciado com o título de Barão de Villa Velha.
(3) O casal Francisco e Anna Amélia teve os seguintes filhos: Francisco(1844-1903), Maria Delfina de Moura Bittencourt(1845-  ) cc José de Lacerda Abreu, Augusto (1846-1914), Elisa de Moura Bittencourt (1847-   ), Auta Amélia de Moura Bittencourt (1848-1958) cc Gabriel de Vasconcellos Bittencourt(1875-1939), Idalina Augusta de Moura Bittencourt (1860-1901)

sábado, 10 de setembro de 2016

Moura assassinado na luta pela Independência do Brasil

Os Moura tiveram uma importância indiscutível ao longo do século XIX no alto sertão da Bahia, especialmente em Rio de Contas. Este relato trata do crime que vitimou José Honório de Moura e Albuquerque, nascido em 1795, filho de Martiniano José de Moura Magalhães e Maria Efigênia da Rocha e Albuquerque. 

Os acontecimentos que levaram à morte de José Honório estão relacionados à disputa entre portugueses e brasileiros durante e após a declaração da Independência do Brasil, especialmente anos 1822 e 1823. Por sua importância, este período continua a ser tema de pesquisa de historiadores que estudam temas relacionados à Independência da Bahia.     

Apesar de situar-se num rincão há mais de mil quilômetros dos acontecimentos que se desenrolavam na capital do Império, Rio de Contas fervilhava, mergulhada na disputa política que decidiria o destino do Brasil. Afinal, as terras brasileiras continuariam submetidas ao jugo português ou se tornariam independentes, por mais vínculos que continuassem a existir entre as duas monarquias? Ao mesmo tempo, estavam em jogo a ocupação de cargos públicos e poder político, base para garantir influência econômica e paramilitar.

Em fins de 1822, instala-se na Vila de Rio de Contas uma Junta Provisória de orientação política mais conservadora, resistindo manifestar adesão ao novo regime imperial. Em Salvador, permaneciam tropas portuguesas sob o comando de Madeira de Melo. Logo a Junta foi associada aos “europeus” em contraposição aos "brasileiros" que defendiam um claro posicionamento de apoio ao Conselho Interino instalado em Cachoeira. 

Na Câmara de Rio de Contas José Honório fez um forte pronunciamento declarando que a Junta deveria “[...] sujeitar-se ao governo de Cachoeira para onde se mandaria os dinheiros públicos e adjutórios que se pudesse dar”, reforçando o movimento que meses depois culminaria no 2 de julho de 1823.

O próprio Governo de Cachoeira pediu ao Ministro do Império José Bonifácio de Andrada e Silva para que intercedesse junto à D. Pedro para “chamar à ordem as vilas de Rio de Contas e Caetité" uma vez que não se dobravam à autoridade daquele Conselho.

Em 1º de novembro de 1822, em meio à enorme tensão política e militar, a Câmara riocontense decide realizar a aclamação de D. Pedro I como Imperador Constitucional do Brasil, jurando fidelidade à “Causa do Brasil” e obediência ao governo instalado provisoriamente em Cachoeira. 

A Câmara foi cercada por diversos grupos armados, e José Honório foi jurado de morte caso comparecesse à reunião. Seu irmão, Antônio Martiniano, após enfático discurso que proferiu na sessão, também foi ameaçado. Em meio aos acontecimentos José Honório resolve ir à Câmara, chegando por volta das sete horas, quando a sessão já havia terminado. Ao caminhar pelas ruas da cidade foi alvejado com um tiro que lhe atingiu as costas, de modo fulminante.

O assassinato acirrou a disputa política, e as escaramuças entre os denominados "brasileiros" e "portugueses" multiplicaram-se.

Antônio Martiniano de Moura e Albuquerque enviou um pedido ao General Labatut para que fossem tomadas providências, iniciando "uma devassa" sobre o caso, identificando e punindo os responsáveis. Há registro de que os três irmãos - Manuel Justiniano, Antônio Martiniano e Maria Carlota, acusaram na Justiça o Sargento Antônio Rocha de Bastos e outros pelo acontecido. Outras fontes apontaram o Coronel Antônio Ribeiro Magalhães como mandante do assassinato. Contudo, não há registros de que tenha havido acusação formal pelo assassinato, e os culpados nunca foram punidos.

Ao contrário, o tensionamento político levou à prisão de brasileiros, com intervenção do Conselho Interino. 

Muitos anos mais tarde, em abril de 1846, o assassinato de Antônio Martiniano abalaria a família mais uma vez. A motivação, no entanto, já não se relacionava com a disputa política de 1822, e sim à uma guerra entre famílias em episódio contado em verso de cordel e que mereceu destaque até mesmo em romance de Jorge Amado.

Referências:

AMADO FRUTUOSO, Moisés. A IMPRENSA E A CONSTITUIÇÃO DA JUNTA TEMPORÁRIA DE GOVERNO DE MINAS DO RIO DE CONTAS (1822-1823). In: XXVII Simpósio nacional de História. Natal, 22 a 26 de julho de 2013.
AMADO FRUTUOSO, Moisés. “MORRAM MAROTOS!”: ANTILUSITANISMO, PROJETOS E IDENTIDADES POLÍTICAS EM RIO DE CONTAS (1822-1823). Dissertação de Mestrado em História - UFBA, 2015
CAMPOS DE SOUZA, Luiza. CONFLITO DE FAMÍLIA E BANDITISMO RURAL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX: CANGUÇÚS E “PEITOS-LARGOS” CONTRA CASTROS E MOURAS NOS SERTÕES DA BAHIA. Dissertação de Mestrado em História - UFBA, 2014.

sábado, 27 de agosto de 2016

Priscas eras


Na Serra do Espinhaço, antes de chegar à Chapada Diamantina, no alto sertão da Bahia, nasceu a cidade de Caetité. Destacou-se muito tempo como importante centro educacional e cultural. Jovens de toda a região para ali se deslocavam para frequentar a Escola Normal, ou a Escola do Padre Palmeira.

Talvez por isso, famílias tradicionais desenvolveram estilo próprio no uso da língua portuguesa. Estilo só visto em priscas eras, quase um idioma próprio, em função da inacessibilidade da gente comum à compreensão do que se falava nas casas daquela elite local.

Questionados sobre a sofisticação do linguajar, respondiam impávidos: "cada símio na ramificação arbórea que lhe compete", demarcando o campo. A empregada, coitada, ficou atônita quando lhe ordenaram: "tome um elemento cortante, vá ao pântano cercante, e deixe o suíno inerte". Saiu correndo, apavorada, antes que se lhe acometesse algum mal.

Não gostavam, contudo, de muita conversa e, enfadonhos com o falar simplório do povo do lugar, diziam impacientes: "interlóquio para acalentar bovinos nos braços de Morfeu".

Em geral, a frase não surtia qualquer efeito, senão espanto ou desconcerto.

Foi de Caetité, no entanto, que saiu um dos grandes educadores do Brasil - Anísio Teixeira, que defendeu um amplo movimento pela alfabetização e estímulo à educação popular e de tempo integral.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O Barão de Villa Velha


Joaquim Augusto de Moura nasceu em Rio de Contas, Bahia, no ano de 1828, vindo a falecer a 21 de maio de 1898, na cidade do Rio de Janeiro. Filho de Martiniano Moura e Albuquerque e Francisca Joaquina de Carvalho Vasconcellos, de tradicionais famílias do alto sertão baiano, teve duas irmãs, Ana Amélia de Moura Vasconcellos, casada com o Major Francisco de Vasconcellos Bittencourt, e Maria Florinda de Moura Albuquerque, casada com Faustino Fogaça de Souza.

A "Casa do Barão", na localidade de Lagoa do Timóteo, a 56 quilômetros da sede do município de Livramento de Nossa Senhora, é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico da Bahia - IPAC. Construída originalmente como Casa dos Coqueiros, no século dezoito, teve a sua ala direita construída em meados do século XIX, provavelmente por Joaquim Augusto de Moura. Reforça esta tese a informação e que neste período teria passado a residir na região, onde já morava a sua mãe(1).

Em novembro de 1861, o Capitão Joaquim Augusto foi promovido a Tenente-Coronel, Comandante do 57o. Batalhão de Infantaria da Guarda Nacional do Município de Minas do Rio de Contas, sendo reformado no posto de Coronel, dezoito anos mais tarde, em fevereiro de 1879.

Nesse meio tempo, um fato relevante é registrado. Em 1863, o Tenente-Coronel Joaquim Augusto de Moura recebe uma suspensão das suas atividades na Guarda Nacional por alegadas razões de descumprimento de ordens do Presidente da Província da Bahia, Antonio Coelho de Sá Albuquerque, por ocorrência militar registrada no ano anterior em desdobramento a um recrutamento de cidadãos riocontenses. Contudo, suspeitas foram levantadas quanto às razões de natureza político-eleitoral, que seriam as reais motivações para a punição(2).

Em maio de 1873, o Imperador D.Pedro II concede a Joaquim Augusto o título de Barão de Villa Velha, em retribuição a vultosa doação de 10 contos de réis que fizera para a "instrução pública" de Rio de Contas. Vila Velha é uma referência à sede do atual município de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, na borda da Chapada Diamantina, fazendo divisa com o município de Rio de Contas. Posteriormente, foram registradas várias doações feitas pelo Barão, seja para o esforço da Guerra do Paraguai, ou para instituições de caridade, principalmente no período em que passou a morar no Rio de Janeiro.

Seu deslocamento para o sul do país é apontado por estudiosos da história regional da Bahia, sendo, no entanto, residual o registro de sua passagem por São Paulo e deslocamento para o Rio de Janeiro.

A partir de 1881 são encontradas inúmeras referencias à sua presença no Rio de Janeiro em jornais da época, seja por seu papel na administração da Santa Casa de Misericórdia(1881 a 1888) ou como membro do Conselho Fiscal do Banco do Brasil(1886 a 1890), membro da Ordem Terceira de São Francisco de Paula, ou sorteado para integrar Juri. Também são anotados registros do seu deslocamento anual para Petrópolis no período de novembro a fevereiro, quando o verão era mais intenso. Até mesmo um roubo que foi vítima quando se hospedava em um hotel do Rio, em 1882, mereceu registro nos jornais.

Em 1881, recebe a Comenda da Real Ordem Militar Portuguesa de Nossa Senhora da Conceição da Vila Viçosa. Três anos depois, foi nomeado para a Ordem da Rosa, alta condecoração do Império.

Em 1898, após longo período de enfermidade, morre aos 70 anos em sua casa, à Rua Senador Vergueiro, no Rio. Seu corpo foi sepultado em jazigo bem ornamentado no Cemitério do Catumbi. Entre os presentes, seu primo, ex-deputado Marcolino de Moura Albuquerque, e seu sobrinho Leonel Rocha.

A 7 de julho de 1922, faleceu, também no Rio de Janeiro, a Baronesa Carlota Joaquina de Matos, esposa de toda a vida, nascida em Rio de Contas. Não deixou descendência(3).
_________________

(1) Mozart Tanajura, em "História de Livramento. a Terra e o Homem". 430 páginas. Ed. Secretaria da Cultura e Turismo - Bahia. Salvador, 2003.
(2)  Informações complementares em textos publicados em vasconcelosbahia.blogspot.com
(3) As informações aqui detalhadas, foram obtidas em jornais, em especial das décadas de 80 e 90 do século XIX, entre os quais o Diário do Commércio, Diário de Notícias, Gazeta de Notícias, Diário do Brazil, O Paiz,entre outros.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Recrutamento


Este texto é sobre um longínquo ancestral dos Vasconcelos de Brumado. Trata-se do bisavô do meu avô Osório. Chamava-se José e era o pai de Rodrigo, que era pai de Faustino, este pai de Osório que foi pai de uma vasta prole. Não se sabe ao certo quando nasceu, e não  parece ter sido um dos dos três Vasconcellos Bittencourt - José, Manuel e Francisco, chegados dos Açores. O mais provável é que tenha sido filho de algum daqueles desbravadores.

No ano de 1862, ainda se ouvia ecos da Guerra do Prata acontecida dez anos antes, e cresciam as disputas territoriais que se seguiram e que estão entre as causas da Guerra do Paraguai.

Na falta de um contingente militar que atendesse às exigências do enfrentamento entre as nações do sul do continente, o recrutamento se intensificava na população civil. Foram milhares e milhares de cada Província, ano após ano. A Bahia estava entre as que mais contribuições fazia: escravos, jovens nascidos fora do casamento, delinquentes e, à medida que as forças armadas precisavam mais reforços, voluntários, praças da Guarda Nacional e população a mais empobrecida.

Naquele ano, em Rio de Contas, a polícia fez mais um desses recrutamentos, prendendo populares que preenchiam os critérios já citados, especialmente jovens. Como um grande número de efetivos da tropa regular havia sido aquartelado na cidade da Bahia, o governo da Província determinou que a Guarda Nacional conduzisse os recrutas até Salvador

A ordem foi direcionada a dois comandantes da Guarda Nacional - o Tenente Coronel Joaquim Augusto de Moura e o Tenente Coronel José de Vasconcelos Bittencourt, comandantes do 57º e 59º batalhões, respectivamente. Caberia a eles indicar destacamentos daquela força civil, com características paramilitares, para escoltar os recrutas até a Capital.

Reagindo à ordem superior, os tenentes coronéis não cumpriram a determinação, ficando os recrutas encarcerados durante sete meses nas prisões públicas da região. Na verdade, muitos recrutados eram, comumente, praças da Guarda Nacional. A patente de tenente-coronel era usualmente destinada a lideranças políticas locais, de famílias de muitas posses e influência, o que explica a disposição de descumprir uma ordem direta.

Em represália o Presidente da província, Antonio Coelho de Sá Albuquerque, em janeiro de 1863, determinou a suspensão dos dois comandantes e mais o tenente-coronel Manoel Alves de Castro Coelho, do exercício das suas funções sob acusação de negligência, fato que destacou no seu Relatório à Assembleia Provincial. Na falta de justificativa mais convincente apontou que o descumprimento se deu por "capricho" dos oficiais.

O assunto foi motivo de grande repercussão nos jornais diários da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Houve quem elogiasse a conduta rigorosa do Presidente da Província da Bahia, mas também teve espaço quem visse nos acontecimentos uma manobra política para beneficiar opositores dos tenentes-coronéis nas eleições que ocorreriam brevemente. Um certo Sr. Espínola, a ser melhor decifrado, seria, senão um dos mentores, eventual interessado na punição aos Tenentes-Coronéis. A soltura dos recrutas encarcerados e a suspensão de novos recrutamentos até que se dispusesse de força para conduzi-los de imediato, foram medidas apontadas como parte da manobra política. Afinal, alegava-se, havia ou não contingente para a escolta? Se havia por que não foram utilizados? 


A despeito daquele acontecimento político, o povo continuou a sofrer com recrutamentos e alistamentos coercitivos por muito tempo.


Um daqueles personagens, Joaquim Augusto de Moura, se tornaria mais tarde o Barão de Vila Velha. Quanto ao tenente-coronel José de Vasconcellos Bittencourt, continuou tendo vida social e política ativa, falecendo em 1887.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O ATUANTE GABRIEL

Faleceu anteontem, em São José dos Campos, São Paulo, o Sr. Gabriel de Vasconcellos Bittencourt. Assim se lê no obituário da edição da Folha da Manhã, de 6 de outubro de 1939. Nascido em Minas do Rio de Contas, Bahia, em 12 de dezembro de 1875, Gabriel era um dos filhos de José de Vasconcellos Bittencourt Filho e Filomena Vasconcellos Bittencourt, sobrinho, portanto de Rodrigo e Umbelina.(1)

Gabriel acompanhou os pais quando estes se deslocaram para Casa Branca, SP, no final dos anos oitocentos. A falta de informações entre os familiares remanescentes na Bahia, e a curiosidade sobre o seu paradeiro, levou à busca de referências em notícias publicadas na imprensa paulista, resultando em verdadeiro quebra-cabeça o qual, neste texto, se pretende montar uma pequena parte.

No caso de Gabriel há muitos achados, em parte devido à sua militância política no Partido Republicano Paulista, o PRP, assim como por sua atuação como “homem de imprensa”.

Sua vida, ele compartilhou com D. Auta de Moura Bittencourt, com quem se casou, sendo filha de Antônio Martiniano de Moura Bittencourt, ambos migrantes das Minas do Rio de Contas. Radicaram-se na mesma região, no município de Palmeiras, hoje Santa Cruz das Palmeiras, desmembrado de Casa Branca.

O primeiro registro da atividade de Gabriel foi encontrado nos anos de 1890, quando tinha apenas 15 anos de idade. Na edição de 30 de dezembro do jornal o Estado de São Paulo, publicou-se o resultado de exames para “Chorographia e História do Brasil” – tratava-se de uma disciplina que cuida da descrição geográfica e história do país, na qual o aluno obteve o conceito de “simplesmente” aprovado.

São informações pontuais, mas que representam joias na tentativa de compreender a trajetória dos Vasconcellos Bittencourt no interior paulista, e com  Gabriel não foi diferente.

Anos depois, em 30 de setembro de 1899, o Diário Oficial, informa 
ter sido nomeado Capitão-assistente do Estado-Maior, 8ª Brigada de Cavalaria da Guarda Nacional, posto do qual seria dispensado pouco tempo depois, assim como todos os seus irmãos e amigos, numa reestruturação daquele Corpo paramilitar.

Sua atividade social levou a que, em julho de 1901, fosse elevado ao 2o grau, na Loja Maçônica de Tambahú, capítulo “Humanidade e Progresso”. Em fevereiro de 1902, é mencionado numa discussão sobre a legalidade das eleições no município, referido como segundo Juiz de Paz. Tambahú foi desmembrado de Casa Branca, processo em que teve grande destaque o Sr. José de Vasconcellos Bittencourt, pai de Gabriel (2).

Foi nos anos 30, no entanto, que o nosso biografado parece ter abraçado a política com mais determinação (3). Na cidade de Palmeiras, integrou a comitiva que em fevereiro de 1930, recebeu o candidato à presidência da República, Júlio Prestes, em plena campanha eleitoral. Vale dizer que o então Governador de São Paulo, acabou sendo eleito Presidente do Brasil - o último da República Velha, mas não tomou posse em função da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, em novembro daquele ano.

A resposta paulista foi a Revolução Constitucionalista de 1932, que criticava a suspensão da vigência da Constituição republicana, opondo-se desta forma ao Governo Vargas. Foi uma guerra civil, na qual se estima mais de 3 mil mortos entre os paulistas e as forças federal e de outros estados, inclusive da Bahia, que foram ao combate em São Paulo.

Parte do esforço paulista para a guerra, a Campanha do Ouro conclamava a população a doar o metal precioso para produzir ou adquirir armas e atender a outras necessidades da campanha militar. O compromisso de Gabriel se manifesta nas doações que fez, conforme registro do jornal Folha da Manhã, de 20 de agosto de 1932. Diz que, em Palmeiras, foi entregue na Coletoria Estadual entre outros donativos, “uma insígnia maçônica Gr. 3; uma moeda de cobre de 1822; um par de botões de punho em ouro; uma guarnição de botões de ouro de punhos e peito; um par de esporas de prata, entregues por Gabriel de Vasconcellos Bittencourt”.

Finda a Guerra, nosso personagem participa ativamente do Partido Republicano Paulista, o PRP, partido que desde os anos 70 do século anterior tinha hegemonia da política estadual, elegendo todos os governadores daquele estado. Anota-se, especialmente no jornal Correio Paulistano, manifestações de Gabriel de apoio à Comissão Diretora estadual daquele partido. Em fins de 1937, o PRP é extinto com a instalação do Estado Novo.

Gabriel de Vasconcellos Bittencourt também se destacou na vida pública como Diretor-proprietário do jornal “A Cidade” no município de Palmeiras, a partir do qual se relacionava com jornais paulistas de maior circulação. Integrava a Associação Paulista de Imprensa, participando ativamente na escolha da representação da categoria profissional dos jornalistas (4).

Por fim, dois últimos registros são encontrados na imprensa daquele estado. No primeiro deles, datado de maio de 1939, o correspondente da Folha da Manhã, em Palmeiras, informa que “encontra-se em franco restabelecimento da moléstia que o reteve ao leito, nosso companheiro de imprensa”. Cinco meses depois, entretanto, o noticiário dá conta do falecimento de Gabriel em São José dos Campos, onde seu corpo foi enterrado.

Dona Auta de Moura Bittencourt, sua esposa, faleceu na capital paulista, em 1958, quase vinte anos depois, aos 78 anos de idade (5). Não foram encontrados registros sobre a existência de descendentes do casal.

Contar a história de alguém a partir de notícias esparsas encontradas em jornais publicados décadas antes, ainda que se tente contextualizar historicamente, pode não oferecer uma imagem apropriada, mas não havendo anotações ou história oral, foi a alternativa que restou. Mas sempre podem surgir novas informações e assim vai-se enriquecendo esta trajetória familiar.

Referências e Notas
(1) Havia dúvida sobre os pais de Gabriel, o que foi sanado com a obtenção do Atestado de Óbito, emitido pelo Cartório de Registro Civil de São José dos Campos. Seus pais são irmãos dos seus tios Rodrigo e Umbelina, ou seja José é irmão de Rodrigo e, Filomena irmã de Umbelina, o que explica em parte a confusão que se estabeleceu sobre a paternidade.
(2) Há uma variedade de informações dispersas, notícias dos mais variados tipos que se referem a GVB:
- em julho de 1911, põe à disposição da secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, mais precisamente da Diretoria de Indústria Animal, para estudos científicos, “um animal atacado de osteomalacia”;
- Folha da Manhã (14/06/1931). Publicação: Ordem do Dia para julgamentos na 2ª Câmara, Palmeiras. Agravante: Gabriel de Vasconcellos Bittencourt.
- Folha da Manhã (17/05/1933), Gabriel, Diretor do diário local de Palmeiras, registra primeira comunicação telefônica com a cidade de São Paulo, feita da redação de “A Cidade”.
- Folha da Manhã (05/01/1934) Despacho da Secretaria de Justiça e Segurança de São Paulo, indefere pedido de pagamento a Gabriel de Vasconcellos Bittencourt, Juiz de Paz da sede da Comarca de Palmeiras.

(3) Notas sobre a participação política de GVB:
- Correio Paulistano(18/10/1934) Na condição de Fiscal da eleições que acontecem em Palmeiras, GVB publica protesto apresentado contra representante do Partido Constitucionalista, que supostamente estaria pressionando os eleitores.
- Correio Paulistano (22/03/1936) Na condição de Delegado do Partido Republicano Paulista acompanha o recebimento de urnas das eleições municipais. Uma foto em que figura GVB, ilustra o texto.
- Correio Paulistano (13/12/1936) registra a passagem do aniversario de Gabriel, em 12 de dezembro.
- Correio Paulistano (20/03/1936) Gabriel integra comissão de honra que, em Palmeiras, da campanha de iniciativa da Escola Paulista de Medicina, de dotar São Paulo de um "eficiente estabelecimento hospitalar".
- Correio Paulistano (08/05/1937) Gabriel integra uma longa lista de partidários, que se declaram solidários à Comissão Diretora do PRP, lamentando a "retirada dos dois companheiros”.

(4) Sobre sua vinculação com a imprensa:
- Folha da Manhã (29/05/1933) Associação Paulista de Imprensa publica relação de associados, entre os quais GVB.
- Correio Paulistano (13/08/1935) Gabriel vai a São Paulo votar para a escolha do delegado-eleitor da Associação Paulista de Imprensa.
- Folha da Manhã (04/08/1935), Publicação de anúncio de apoio a deputado classista, representante dos jornalistas de São Paulo, assina, entre outros GVB.

(5) Falecimento:
- Folha da Manhã (06/10/1939) Nota fúnebre anuncia o falecimento de GVB.
- O Estado de São Paulo (23/04/1958) Nota fúnebre noticia o falecimento de D. Auta de Moura Bittencourt.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O CORONEL CAZUZA


Nascido em Minas do Rio de Contas, Bahia, em 1846, descendente de açorianos que aportaram na Bahia em fins do século XVIII, José de Vasconcellos Bittencourt Júnior, mais tarde conhecido carinhosamente como Coronel Cazuza, migrou em direção ao Sul do país ainda jovem, tendo chegado à Casa Branca, São Paulo, no ano de 1878. São escassos os registros de sua estadia na Bahia, entre as quais uma procuração registrada em cartório do município de Caetité, através da qual autoriza a venda de escravos a ele pertencentes. Era um expediente muito usado em razão das restrições crescentes ao tráfico de negros, inclusive de uma província para outra. 

José casou-se com Filomena, filha de Brás de Vasconcellos Bittencourt e Antônia Francisca de Magalhães, também oriundos da região de Rio de Contas. Filomena era irmã de Umbelina, que casou com o irmão de José, Rodrigo. José e Filomena tiveram ao menos dois filhos, Rafael e Gabriel.

Em terras paulistas desenvolveu atividades empresariais e políticas. Exerceu mandato de vereador casabranquense no período de 1883 a 1887. 

Aqui vale uma pausa para tratar de uma questão de natureza genealógica. Merece comentário uma nota publicada no jornal O Estado de São Paulo, datada de 30 de julho de 1882, e assinada por um cidadão chamado Augusto Cesar Correa. O referido senhor se sentiu na obrigação de esclarecer que apoiou José de Vasconcellos Bittencourt Júnior para vereador naquelas eleições, negando que houvesse votado em outro candidato. A novidade a ser destacada nesta publicação, nem sempre registrada na maioria das anotações encontradas, é a referência ao complemento "Júnior" acrescido ao nome do então futuro Coronel, indicando que fora batizado com o mesmo nome do pai. Esta informação deve ser agregada a tantas outras, inclusive certidão expedida por Cartório de Rio de Contas, dando conta chamar-se José, o pai de Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt. Este é, portanto, mais um dado que sugeria que o Coronel Cazuza e Rodrigo de Vasconcellos Bittencourt eram irmãos. Esta dúvida foi sanada conclusivamente com a análise do Inventário de Dona Rodriga de Castro Meira Vasconcellos, sua mãe.

Voltemos à trajetória do Coronel Cazuza no interior paulista, para destacar o seu papel na emancipação do município de Thambaú, desmembrado de Casa Branca em 1898. Considerado um dos principais emancipadores, foi eleito e empossado como primeiro presidente da Câmara da nova municipalidade. Também outros parentes se dedicaram à vida política: Augusto e Rodrigo, Gabriel e Augusto Júnior, principalmente em Casa Branca.

Em 1886, há registros da participação do Coronel em uma "reunião de capitalistas" conforme noticiou o periódico A Província de São Paulo. O objetivo era discutir a ampliação da estrada de ferro de modo a alcançar o município de Casa Branca, a partir da via férrea D. Pedro II. A mesma nota registra que passou a integrar comissão eleita naquela oportunidade para levar adiante o objetivo, que mais tarde se concretizaria. A ferrovia foi muito importante para o desenvolvimento da economia cafeeira na região. 

O Coronel Cazuza foi proprietário de diversas fazendas ou partes delas, entre as quais a Fazenda Terra Vermelha, a Fazenda Palmeiras da Terra Vermelha (com 824,3 ha), bem como a Fazenda Terra Vermelha de Cima, todas localizadas na região de Casa Branca. Em alguns destes empreendimentos teve como sócio Augusto de Vasconcellos Bittencourt. 

A intensa atividade política como vereador e dirigente partidário, implicou na divulgação de fatos da sua vida pública, e também privada, nos jornais da época. O correspondente do jornal O Estado de São Paulo, em Casa Branca, registrou em fevereiro de 1901, por exemplo, que um baile realizado em sua residência contou com a presença da "flor da sociedade de Tambaú", festejando até o amanhecer. No mesmo ano, em dezembro, é ressaltada a sua escolha na Convenção partidária municipal para participar da reunião do Diretório estadual na capital paulista. As notícias da sua movimentação são de tipo variado, inclusive sobre de natureza particular: em 1890, é registrado como hóspede recém chegado no Hotel Franca, em São Paulo; em julho de 1899, faz publicar nota dando conta da perda de uma mala na primeira classe do trem de São Paulo a Casa Branca, na qual haveria documentos, prometendo recompensa; em junho de 1901 esteve "ligeiramente enfermo"; em julho, deslocou-se a São José do Rio Pardo para “buscar sua esposa que ali se achava em tratamento”; também em julho de 1901, é empossado em grau mais elevado na Loja Maçônica Humanidade e Progresso; em fevereiro de 1902, seguiu a passeio para Ribeirão Preto. Como se vê são referências ao cotidiano de alguém que o noticiário considerava importante registrar em função de seu papel na sociedade local. 

Sua dedicação à política não o fez descuidar dos negócios, contudo, especialmente na condição de produtor de café. Conforme o periódico A Província de São Paulo, o então capitão teria recusado uma oferta de 70:000$ (70 contos de réis) por sua safra de café, em Casa Branca, no ano de 1902. Ainda sobre as atividades rurais, há registro de uma hipoteca no ano de 1890 e, em 1906, um empréstimo de 80:402$720 réis com juros de 12% ao ano, entregando em garantia uma safra de café calculada em 20 mil arrobas, depois de beneficiada. 

Com o encerramento do seu mandato na presidência da Câmara de Tambaú, em 1902, não se encontra novos apontamentos sobre sua atividade, salvo vinte anos depois, em novembro de 1921, quando, aos 73 anos, presidiu uma assembleia para a criação da Irmandade Beneficente de Tambaú. Em 30 de janeiro de janeiro de 1925, aos 77 anos, morre o Coronel, que continuou sendo lembrado pela Loja Maçônica do município que ajudou a fundar. Anualmente, cidadãos que se destacam naquela localidade paulista, são homenageados com a entrega de uma Honraria que leva o nome do Coronel Cazuza, que segundo os organizadores é como se tornou conhecido popularmente o Sr. José de Vasconcellos Bittencourt. Novembro/2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ANTÔNIO MARTINIANO, UM MOURA EM SÃO PAULO




Uma conversa puxa a outra. Assim acontece também com o desenrolar desse novelo sobre as famílias que viveram nas Minas do Rio de Contas no século XIX e que se transferiram para São Paulo nas décadas que antecederam à chegada do novo século.

Há várias tentativas de explicação para o deslocamento de riocontenses para o sul do país, e entre os argumentos mais encontrados nos estudos históricos estão aqueles que de alguma forma relacionam a migração ao tráfico de escravos, às condições climáticas adversas em meados do século XIX e, especificamente, à crise na produção e nos preços de produtos agrícolas.

De fato, com a proibição do tráfico externo de escravos em 1850, desenvolveu-se o comércio interno entre as regiões do país, estimando-se que “até ser abolido oficialmente em 1885, o tráfico interprovincial movimentou nada menos do que 200 mil escravos das províncias do norte para as do sul” (1).

À medida que a legislação restringia a escravidão, como no caso da Lei do Ventre Livre, de setembro de 1871, aumentava a demanda por trabalho escravo nas principais regiões produtoras. Somente com a edição da Lei Saraiva-Cotegipe, é que todo o tráfico intra e entre províncias foi proibido.

Em São Paulo, entre 1861 a 1887, o destino dos escravos “do norte” era os municípios cafeeiros, notadamente Guaratinguetá e Casa Branca, com destaque para este último. Em Casa Branca, 28,8% dos procuradores de vendedores de escravos correspondiam a residentes na Bahia, em especial Vila Velha, Caetité e Rio das Contas (2).

Adicionalmente à demanda sulista por mão de obra escrava, outro fator que impulsionou o fluxo migratório foi a crise econômica instalada nas regiões produtoras de algodão e açúcar. Os baixos preços desses produtos fizeram com que as atividades produtivas permanecessem estagnadas, limitando a necessidade de trabalho braçal. Assim, a venda de escravos representava para os grandes proprietários uma saída para a recuperação do capital investido na produção agrícola (1).

As condições adversas do clima também devem ser consideradas nestas análises. Segundo o Prof. Erivaldo Neves da UEFS, “depois da catastrófica seca de 1857-1861, que despovoou os sertões nordestinos, novo período de estiagem disseminou logo o pânico popular e provocou a emigração em massa e a venda da escravaria”(3).

Como se sabe, entre as famílias baianas possuidoras de escravos que migraram para Casa Branca estão os Spínola, os Vasconcellos Bittencourt, mas também os Moura de Albuquerque. Pois é sobre um Moura em especial que se dedica este texto a discorrer, dando uma breve notícia sobre sua descendência em São Paulo.

Efetivamente, entre as “procurações de senhores para venda alhures de escravos, indicando transferência de mão-de-obra cativa da policultura de Caetité para a monocultura do café na fronteira agrícola do Oeste Paulista”, no dizer do texto “Sampauleiros Traficantes”, encontra-se o nome de Antônio Martiniano de Moura e Albuquerque (3).

Antônio Martiniano é filho de Manuel Justiniano de Moura e Albuquerque (falecido em 1881) e Auta Rosa de Moura e Meira, ambos com papel relevante nos relatos históricos e mesmo romanescos sobre a guerra entre os Moura e os Cangussú, que levou a intranquilidade e a morte para muitas famílias do sertão em meados do século dezenove.

Antonio Martiniano casou-se com D. Maria Delfina de Moura Bittencourt, filha de sua prima Ana Amélia Moura e do Major Francisco de Vasconcellos Bittencourt. Este, descendente direto dos primeiros Vasconcellos Bittencourt que chegaram à Bahia vindos Açores.

Um registro importante sobre a atividade de Antônio Martiniano é encontrada nos arquivos municipais de Rio de Contas. Em 1877, o presidente da Província da Bahia encaminha correspondência ao Juiz daquela localidade solicitando informações "sobre Antonio Martiniano de Moura e Albuquerque, que devia imposto provincial por se mudar para São Paulo, levando consigo cerca de duzentos escravos" (4). "Albuquerque era um dos traficantes do Alto Sertão que vendia escravos para o Oeste Paulista por meio de procurações passadas pelos escravistas, e talvez tenha usado o artifício da mudança para outra província para traficar mais livremente." Ao concluir, o estudo considera ser difícil mensurar o impacto do tráfico interprovincial no município, uma vez que não havia controle sobre o mesmo"(5).

O fato é que Antônio Martiniano transferiu-se para São Paulo, mais especificamente para Casa Branca como tantos outros riocontenses, em especial os Vasconcelos Bittencourt.

Uma Lei de 1881, assinada pelo Senador e Presidente da Província de São Paulo Florencio Carlos de Abreu e Silva, estabelece que "Fica pertencendo ao município de Casa Branca e desanexado do de Pirassununga a fazenda do tenente-coronel Antonio Martiniano de Moura e Albuquerque" (6). Mais tarde esta região é desmembrada para constituir um município autônomo em maio de 1886.

Trata-se do município de Santa Cruz das Palmeiras, cuja história aponta a existência de fazendas de produção de café relevantes para a formação do município entre as quais está a "fazenda Maracajú, de Antonio Martiniano de Moura Albuquerque" (7).

Um segundo Antonio Martiniano de Moura e Albuquerque, filho do primeiro, é identificado em Sao Paulo, tendo sido nomeado por decreto de 31 de julho de 1905 a capitão da primeira companhia da Guarda Nacional na Comarca de Santa Rita de Passa-Quatro. Antonio Martiniano, o segundo, casa-se com D. Maria das Dores Cardoso de Moura Albuquerque (8).

Entre os filhos de D. Maria das Dores (que registra um terceiro Antônio Martiniano) está aquele que consagrou-se como membro do Ministério Público daquele Estado: Mário Tobias de Moura e Albuquerque. Nascido em Santa Cruz das Palmeiras, no ano de 1904, faleceu em 1967, aos 62 anos. Bacharel pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1927, teve participação ativa na Revolução Constitucionalista de 1932, ingressando no batalhão Voluntários de Itapetininga. Em 1956, torna-se Procurador-Chefe do Ministério Público, voltando a assumir o posto entre 1964 e 1965. Em São Paulo emprestou o nome a uma escola e a uma penitenciária estaduais.

Assim, aos poucos, vai se desvendando os segredos da migração dos baianos de Rio de Contas para o oeste paulista, contribuindo para o desenvolvimento daquele estado.



1  ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE era filho de MANUEL JUSTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE (filho de MARTINIANO JOSÉ DE MOURA MAGALHÃES) e   AUTA ROSA DE MEIRA E MOURA E ALBUQUERQUE.
              ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE  casou-se com 
              MARIA DELFINA DE MOURA E ALBUQUERQUE e tiveram filhos, entre os quais:
             2.  M    i     ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE (FILHO)
             3.  F     ii    ANA AMÉLIA DE MOURA ALBUQUERQUE
             4.  F     iii   BELA ROSA MOURA DE ABREU
             5.  F     iv   AUTA DE MOURA BITTENCOURT


      2   ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE (FILHO) casou-se com 
             MARIA DAS DORES  CARDOSO DE MOURA(1882-1960) e tiveram filhos:
             6.   M    i     ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE (NETO)
             7.   F     ii    ANTONIETA MOURA PENTEADO
             8.   M    iii   MÁRIO TOBIAS MOURA ALBUQUERQUE
             9.   M    iv   JORGE MOURA ALBUQUERQUE
     
     3    ANA AMÉLIA DE MOURA ALBUQUERQUE ou ANA VIEIRA DE CARVALHO
               casou-se com ALBERTO VIEIRA DE CARVALHO
  
     4   BELA ROSA MOURA DE ABREU casou-se com JOSÉ DE LACERDA ABREU 
            e tiveram filhos:
           10   F        i     ODETTE MOURA DE ABREU
           11   M       ii    OMAR MOURA DE ABREU
           12   M       iii   JOSÉ MOURA DE ABREU
           13   M       iv   ANTONIO MOURA DE ABREU
           14   M       v    OLAVO MOURA DE ABREU
           15   M       vi   OSWALDO MOURA DE ABREU
           

     5    AUTA DE MOURA BITTENCOURT casou-se com 
              GABRIEL DE VASCONCELLOS BITTENCOURT


      6    ANTONIO MARTINIANO DE MOURA E ALBUQUERQUE (NETO) 
                (1903-1975) casou-se com  LUCINDA DE MOURA E ALBUQUERQUE e 
                tiveram filhos:
             16   F       i  TEREZA CRISTINA  GUIMARÃES

      7    ANTONIETA MOURA PENTEADO casou-se com JOAQUIM PENTEADO

      8    MÁRIO TOBIAS MOURA ALBUQUERQUE (1902-1967) casou-se com 
                 DULCE BOTELHO DE MOURA ALBUQUERQUE (1910-1998) 
                 e tiveram como  filha:
             17   F       i   LÚCIA BOTELHO DE MOURA ALBUQUERQUE 

      9    JORGE MOURA ALBUQUERQUE casou-se com 
                 MARIA MAROLDO DE MOURA ALBUQUERQUE




REFERÊNCIAS

     (1) A participação da Bahia no tráfico interprovincial de escravos (1851-1881)
Ricardo Tadeu Caíres Silva (Mestre em História Social –UFBA) Faculdade Estadual de Educação, Ciências e Letras de Paranavaí- PR. Universidade Federal do Paraná –UFPR (Pós-Graduação/ Doutorado)
     (2) O tráfico de escravos na Província de São Paulo: Areias, Silveiras, Guaratinguetá e Casa Branca, 1861 – 1887. José Flávio Motta
    (3)SAMPAULEIROS TRAFICANTES: COMÉRCIO DE ESCRAVOS DO ALTO SERTÃO DA BAHIA PARA O OESTE CAFEEIRO PAULISTA. Erivaldo Fagundes Neves. UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana.
       (4) Kátia Lorena Novaes Almeida. ALFORRIAS EM RIO DE CONTAS – BAHIA 
Século XIX. Dissertação   apresentada   ao   Curso  de   Mestrado   em História   Social,   Faculdade   de    Filosofia  e   Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia 
     (5) ANTILUSITANISMO E IDENTIDADES POLÍTICAS EM MINAS DO RIO DE CONTAS (1822-1836). Projeto de pesquisa. Mestrado de História UFBA. Moisés Frutuoso.
     (6) Lei Provincial da Assembléia de São Paulo n° 77, de 17/06/1881
 (7) Câmara de Vereadores de Santa Cruz das Palmeiras encontrado em http://www.camarascpalmeiras.sp.gov.br/historia.html
      (8) Diário Oficial de São Paulo, 5 agosto de 1905 pág. 3738.

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